Ele tinha os olhos fixos, imóveis em mim.
Eu sentia. Sentia o calor nas minhas bochechas.
Mas era resistente. Fingia ver o quadro acima do ombro dele. O teto acima de sua cabeça. Os moldes das mesas e cadeiras em que ele estava sentado. Fingia apenas. Via, entretanto, o corpo que existia entre esses breves espaços.
E ri. Ri por dentro. Se expandiu. Ri por fora. Abaixei momentaneamente a cabeça. Ninguém podia saber o motivo do meu riso.
Não queria perder o momento.
Fui firme, fui forte. Olhei diretamente.
Olhava para mim.
Não mais desviei o olhar. Prossegui. Sem sorrir. Sem abalar. Olhei e fingi surpresa. Mantive. Sustentei o olhar.
Pensei momentaneamente. Ele poderia fazer-me rir. Ele poderia concretizar meus planos de sábado. Ele poderia passar a mão pelos meus cabelos e me afagar. Eu poderia conquistá-lo, se ele quisesse.
Levantou. Veio conversar.
Ria comigo. Sorria a qualquer coisa que eu falava. Pediu que se sentasse ao meu lado. Sentou. Mais meias palavras.
Ele poderia ser parte do meu futuro.
Tive que ir embora, entretanto.
Meu futuro ficara para trás. Sabe o que é isso?